Um flâneur com Walter Benjamin

Para os filósofos, seu trabalho era literário demais; para os críticos literários, era excessivamente sociológico. O pensador que nos ajudará a refletir, ou melhor, exercitar a nossa “imaginação sociológica” é o ensaísta, crítico literário, filósofo e sociólogo da cultura Walter Benjamin.

Esse pensador de origem judaica deixou um grande legado e ao mesmo tempo um grande desafio paras os estudos sociológico. Diferente de outros autores, Benjamin nos deixou uma obra difícil classificação, uma vez que se prontificou a escrever sobre diversos temas, e muitos de seus textos jamais foram concluídos.

Podemos dizer que o Walter Benjamin não foi um cientista social no sentido estrito da palavra, embora tivesse inspirado autores da primeira geração da escola de Frankfurt, a começar pelos autores Theodor Adorno e Max Horkheimer. Juntos, esses autores discutiram um tema que já vinha sido trabalhado por Benjamin, a Indústria Cultural e as Culturas de Massas.

Reconhecemos que seus ávidos críticos tiveram razão quando o acusaram de ter sido muitas vezes incoerente. Suas obras dispersivas e fragmentadas causavam espantos na academia quanto admiração. Mas é preciso entender que, para a época, a reflexão crítica sobre os brinquedos, a fotografia, a poesia, o cinema, a prostituta, o flâneur, era irrelevante. Portanto, a essência dos estudos de Benjamin está justamente na sensibilidade de observar a vida da modernidade e seus agentes em face da estrutura da metrópole.

Flâneur

Do verbo francês Flâner, que significa ” passear”, ” caminhar sem rumo, sem destino”. É aquele que caminha pelas ruas da cidade, experimentando as sensações que elas produzem. Foi com a definição dessa palavra, inspirado pelo Charles Baudelaire, que Benjamin encontrou a forma para definir os estilos e o ritmo da vida na modernidade.

Entre os asfaltos parisienses e os passantes, ao londo das grandes ruas de Paris, via-se uma nova paisagem social- as vitrines, os detalhes e uma nova dinâmica social de consumo.

Imagem: The Flaneur Abroad ( Nottingham, 6-7 jul 12)

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A CAPITAL DO SÉCULO XIX

O nosso passeio com Benjamin começa na cidade de Paris, cidade que ele próprio definiu como ” a capital do século XIX. Juntos, nos aproximaremos em alguns inventos tecnológicos que alteraram , segundo nosso autor, profundamente a maneira do homem europeu de se relacionar com a “realidade”. Essas alterações estão relacionadas ao surgimento de novos valores e novos padrões de convivências do povo francês.

O surgimento do cartaz é um dos fatores que chama a atenção de Benjamin. Observa que o surgimento desse instrumento está intimamente ligado às novas culturas urbanas, e está, sobretudo, associada ao consumo de produtos.

A disseminação dos cartazes e outdoors que divulgavam espetáculos, produtos e ideias pelos muros de Paris fizeram com que Walter Benjamin refletisse sobre uma nova sociedade de consumo.

Embora o primeiro cartaz tenha sido produzido somente em 1454, feito em manuscrito por Saint-Flour, é no final do século XIX que ele ganha maiores projeções.

Famoso por retratar a vida boêmia parisiense, Henri de Toulouse-Lautrec nos mostra em seu cartaz “Jane Avril” a vida social agitada da sociedade francesa.

Na obra “Jane Avril” O artista anuncia um show de cabaré no Jardin de Paris em 1893.

Imagem: Henri de Toulouse-Lautrec -, Jane Avril, 1893 – litogravura colorida – 129,1 x 93,5 cm

A maior parte da reflexão de Benjamin sobre a modernidade se encontra no livro Passagens. Nele, o autor julgou as passagens de Paris como algo muito importante. A partir da capital, as galerias comerciais passam a exercer uma profunda transformação. Para ele, as passagens eram como um “mundo em miniatura”, pois se concentravam ali diferentes tipos de mercadorias, principalmente das colônias francesas.

Um outro fator que entra no conceito de um” mundo em miniatura” é simplesmente as várias contradições de um sistema capitalista virgente.

Benjamin nos mostra a contradição entre a fartura e a carência, entre metrópole e colônia, entre o tempo útil de um produto consumido e o tempo efêmero da moda, entre os que podiam entrar para consumir e os que ficavam do lado de fora com os olhos admirados pelas novidades. Seria, nas palavras do nosso autor, um show de exposição de produtos e corpos.

“Cada um é o carro que dirige.”

Autor: Frank Lenita

E se o nosso pensador alemão aportasse no Brasil do século XXI, o que teria a nos dizer sobre o nosso padrão de consumo?

Sem dúvida, ficaria tonto- afinal, em um país grande e diverso, não é tarefa simples indentificar os padrões de consumo da população. No Brasil, o consumo relaciona-se diretamente a posições sociais: ao consumirmos certos produtos revela-se algo importante sobre o nosso status, sobre o lugar que ocupamos ou o que gostaríamos de ocupar na hierarquia social brasileira.

Associar a marca de um produto a determinados grupos sociais, é o que o Pierre Bourdieu chamou de distinção de consumo: classificando as pessoas pelo bem que elas portam. ” Cada um é o carro que dirige”.

As propagandas de produtos e serviços veiculadas pela mídia revelam aspectos que estão em processo de transformação. Nas campanhas, por exemplo, encontramos comportamentos direcionados para grupos étnicos, segmentos sociais, faixas etárias etc. Essas campanhas estimulam o público-alvo a consumir o produto anunciado.

Certamente, Walter Benjamin se surpreenderia com o processo de transformação do cartaz e da evolução constante das vitrines comerciais, ainda que observasse as diferenças de grupos sociais em espaços específicos de consumo.

A mulher parisiense e o padrão de consumo

As passagens eram espaços frequentados sobretudo pelas mulheres de família aristocráticas. Porém, é importante ressaltar que durante muito tempo, e ainda nos dias atuais, as mulheres estiveram associadas ao espaço doméstico. A circulação da mulher em meio a sociedade caracterizava-se como algo absurdo, mesmo as mulheres mais pobres, que trabalhavam fora, não era permitido. Uma mulher “de família” ou uma mulher “de bem e conservadora”, com um sobrenome a zelar , não andava também em qualquer lugar.

Somente um tipo de mulher poderia andar pelas ruas, a prostituta. Isso deve-se ao fato de terem sido vistas como “mercadorias”, e que deveriam ser “expostas” para o consumo masculino. Portanto, as passagens parisienses vieram garantir às mulheres um espaço seguro onde poderiam transitar sem nenhum problema.

Até aqui pudemos perceber o quanto o nosso autor alemão se mostrou sensível às mudanças de comportamento das mulheres e da sociedade patriarcal em relação a elas. Quando analisamos o período da Revolução Industrial e o protagonismo feminino na sociedade europeia, as mulheres das camadas menos favorecidas encontraram-se diante de uma necessidade de sobrevivência. O trabalho era elemento vital para manter-se estável. É nesse momento que elas saem de casa com a família para ganhar o sustento da casa nas grandes fábricas de manufaturas.

É fato que, ao longo de sua obra, Walter Benjamin manteve uma contínua preocupação com as transformações ocorridas em nossa maneira de perceber o mundo. As novas tecnologias alteraram a nossa maneira de perceber a vida ao nosso redor, e isso é, de certa forma, incontestável. Em A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, Benjamin tenta responder a essas questões, afirmando que o progresso das técnicas de reprodução e as alterações da percepção começaram com a fotografia e consequentemente com o cinema.

O daguerreótipo, primeira câmera fotográfica, lançada em Paris, em 19 de agosto de 1839.

Um exemplo disso é a questão da originalidade. Ao contrário da pintura, a fotografia não tem propriamente um “original”. Ela fez circular imagens de paisagens, de pessoas, objetos, mas também de obras de arte que só podiam ser contempladas por uma minoria e por isso pareciam envoltas em uma espécie de “aura”.

Graças à reprodução fotográfica, a Monalisa de Leonardo da Vinci se tornou muito presente no imaginário das pessoas em vários lugares do mundo. Podemos, por exemplo, estampá-la na camisa, nas xícaras, almofadas, tudo graças a fotografia e a tecnologia.

Portanto, Benjamin estava interessado em pensar sobre as alterações ocorridas não apenas na reprodução das imagens, mas também nas formas de perceber o mundo. As novas tecnologias chamaram a atenção de Benjamin porque além de oferecer respostas às necessidades do cotidiano, contribuíram para alterar a apreensão do indivíduo.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Passagens. Edição brasileira: Willi Bolle (Org.). Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007.p.94
Tempos modernos, tempos de sociologia / coordenação Helena Bomeny, Bianca Freire-Medeiros. – São Paulo: Editora do Brasil, 20010.

2 comentários em “Um flâneur com Walter Benjamin

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