KARL MARX – PARTE I

Marx fundou uma nova ciência: a ciência da história. Vou ilustrar isso. As ciências com as quais somos familiares têm seus alicerces em alguns “continentes”. Antes de Marx, dois desses continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico: o continente da matemática e o continente da física. O primeiro pelos gregos (Tales), o segundo por Galileu. Marx abriu um terceiro continente ao conhecimento científico: o continente da história.

[Louis Althusser, A Filosofia Como Uma Arma Revolucionária]

Por Leonardo Santos Pereira

Karl Marx nasceu em 1818, em Tréveris, Alemanha, em uma família de rabinos que havia sido tradicionalmente judia por gerações. No entanto, devido às restrições impostas aos judeus na época, seu pai, Herschel Marx, se converteu ao luteranismo para poder exercer a advocacia, uma profissão que estava fechada para os judeus.

Marx frequentou o Ginásio de Trèves, onde desenvolveu um forte interesse pela filosofia e pela literatura. Em sua dissertação, intitulada “Reflexões de um jovem a propósito da escolha de uma profissão”, Marx desenvolveu duas ideias que o acompanhariam por toda a vida. A primeira ideia era de que a felicidade verdadeira vem de fazer os outros felizes, e que a melhor profissão é aquela que permite ao indivíduo trabalhar pela felicidade do maior número de pessoas. A segunda ideia era de que a vida é marcada por obstáculos que impedem o controle total sobre o destino, e que é necessário encontrar maneiras de superar esses obstáculos para alcançar a felicidade.

Marx estudou direito na Universidade de Bonn e, posteriormente, trabalhou em sua tese de doutorado, intitulada “Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e a de Epicuro”. Sua intenção era se tornar professor de filosofia, mas devido à perseguição dos Hegelianos de Esquerda pelo rei Frederico Guilherme IV da Prússia, Marx não conseguiu um cargo universitário.

A perseguição dos Hegelianos de Esquerda foi um golpe duro para Marx, que havia se tornado um dos principais representantes desse grupo. Seu amigo e mentor, Bruno Bauer, foi proibido de continuar lecionando em Bonn, e Ludwig Feuerbach foi retirado de sua cadeira universitária. Marx, por sua vez, se viu obrigado a se dedicar ao jornalismo, uma profissão que lhe permitiria continuar a expressar suas ideias e a lutar pela justiça social.

Em 1842, Karl Marx enfrentava uma situação difícil. Sem emprego e sem recursos financeiros para sustentar uma família, ele decidiu expressar suas ideias como jornalista. Seu amigo Arnold Ruge, editor da revista Anais Alemães, aceitou publicar seu primeiro artigo, mas ironicamente, o texto foi censurado. O artigo defendia a liberdade de expressão e criticava a censura.

Marx continuou a escrever para a Gazeta Renana, de Colônia, e voltou a discutir a liberdade de imprensa. Ele argumentou que a verdadeira liberdade da imprensa não consiste apenas em não ser censurada, mas também em não ser uma indústria comercial. Para Marx, a comercialização da imprensa é o que a torna ilusória, mentirosa e covarde, pois ela se torna mais interessada em vender notícias do que em informar com objetividade e criticar com independência.

Essa crítica à imprensa comercial é um dos primeiros sinais do pensamento marxista em gestação. Marx estava começando a desenvolver suas ideias sobre a relação entre a economia e a sociedade, e sobre a forma como a comercialização da imprensa pode distorcer a verdade e servir aos interesses dos poderosos.

Por isso, Marx escreveu que aqueles deputados liberais, que haviam defendido a liberdade de imprensa como “uma liberdade comercial qualquer”, tinham acabado por defender a liberdade de imprensa tal como a corda “defende” o pescoço do enforcado.

Quando a imprensa se torna uma mercadoria no mercado de informações, ela se vê presa em uma armadilha. Ela precisa atender às demandas dos seus patrocinadores e influenciadores para sobreviver, o que significa que sua independência e objetividade são comprometidas. A imprensa se torna refém das leis do mercado capitalista, que exigem que ela produza conteúdo que seja atraente para os anunciantes e os leitores, em vez de produzir críticas independentes e informar com objetividade.

Essa é a crítica que Karl Marx faz à imprensa comercial. Ele argumenta que a imprensa não pode ser livre e independente se estiver presa às exigências do mercado. Em vez disso, ela se torna uma ferramenta para os poderosos e os ricos, que usam a imprensa para promover seus interesses e ideologias.

Em outubro de 1843, Marx se mudou para Paris, onde planejou lançar uma nova publicação, os Anais Franco-Alemães, com seu amigo Arnold Ruge. Além disso, Marx escreveu uma Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, que foi um importante passo em seu desenvolvimento como pensador crítico.

na qual mostrava que as considerações teóricas de Hegel sobre o direito eram inócuas, porque não indicavam os meios práticos, materiais e sociais capazes de levar à efetiva superação dos problemas humanos que elas abordavam.

Para Karl Marx, o poder que é exercido através da dominação econômica e social só pode ser superado por um outro poder que também se manifeste na esfera material. Em outras palavras, a teoria revolucionária só se torna eficaz quando é adotada pelas massas e se transforma em uma força material capaz de desafiar a ordem estabelecida.

Marx acreditava que apenas as massas proletárias, ou seja, os trabalhadores explorados e oprimidos pelo sistema capitalista, tinham o poder e a capacidade de promover uma mudança radical na ordem social, econômica e jurídica. Essa mudança não poderia ser realizada apenas através da teoria ou da propaganda, mas sim através da ação coletiva e consciente das massas proletárias.

A filosofia pôs a nu a desumanidade do mundo presente. Feuerbach mostrou que a religião é uma solução ilusória, uma alienação. No entanto, a filosofia se mostrou impotente para, por si mesma, superar a desumanidade e acabar com a alienação. Marx chegou à conclusão de que a filosofia precisava dispor de uma arma material capaz de fazer prevalecer, prática e socialmente, o ideal de humanismo.

Para Karl Marx, a arma mais poderosa para transformar a sociedade atual é o proletariado, ou seja, a classe trabalhadora explorada e oprimida pelo sistema capitalista. Marx acreditava que o proletariado tinha o potencial de se tornar uma força revolucionária capaz de derrubar a ordem estabelecida e criar uma sociedade mais justa e igualitária.

Em 1844, Marx e seu amigo Arnold Ruge lançaram a primeira e única edição dos Anais Franco-Alemães, uma publicação que visava promover a crítica social e política. No entanto, a publicação foi logo suspensa devido às dificuldades de distribuição clandestina na Alemanha e às divergências entre Marx e Ruge.

A edição dos Anais Franco-Alemães incluía dois trabalhos importantes de Marx: a Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel e Sobre a questão judaica. Neste último trabalho, Marx respondeu ao artigo de Bruno Bauer sobre a questão judaica, no qual Bauer criticava o egoísmo judaico por buscar apenas a liberdade religiosa. Marx argumentou que os judeus, como parte da humanidade, deveriam lutar não apenas pela sua liberdade religiosa, mas também pela libertação política do gênero humano.

Para Karl Marx, a libertação política não é suficiente para alcançar a emancipação humana. A libertação política depende das leis estabelecidas pela sociedade, mas a emancipação humana requer uma transformação mais profunda do sistema social e econômico. Marx argumenta que a liberdade política é apenas uma parte da liberdade humana, e que a verdadeira liberdade só pode ser alcançada quando os homens forem livres para desenvolver suas atividades criativas sem a pressão da propriedade privada e do dinheiro.

Marx também critica a religião, argumentando que ela é impotente para combater a exploração do homem pelo homem. As religiões, segundo Marx, funcionam como um ópio do povo, pregando o conformismo e a resignação. No entanto, Marx não vê a religião como o problema em si, mas sim como um sintoma de uma sociedade dividida em classes. Para Marx, a superação da religião como ópio do povo requer a transformação da estrutura social e econômica da sociedade.

Marx se opõe à visão de Bruno Bauer, que acreditava que a superação das religiões poderia ser alcançada através de leis que garantiam a liberdade política e a igualdade. Marx argumenta que essa abordagem é insuficiente, e que a verdadeira transformação requer uma mudança mais profunda do sistema social e econômico.

O SISTEMA ECONÔMICO

Karl Marx começou seus estudos com a filosofia alemã, mas logo se voltou para a economia política inglesa. Ele estava determinado a analisar o sistema capitalista que estava crescendo na Inglaterra e anotou suas ideias em folhas soltas que mais tarde seriam publicadas como os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844.

Nesses manuscritos, Marx desenvolveu sua teoria da alienação, que é uma parte fundamental da teoria marxista. Segundo Marx, os seres humanos têm a capacidade de planejar e projetar suas ações, o que os diferencia dos animais. Enquanto os animais trabalham apenas para atender necessidades imediatas, os seres humanos podem escolher livremente como querem trabalhar e como querem realizar seus objetivos.

Marx argumenta que a liberdade humana está relacionada à capacidade de escolher e planejar suas ações. No entanto, no sistema capitalista, os trabalhadores são alienados de sua liberdade e são forçados a trabalhar apenas para sobreviver. Essa alienação é uma das principais críticas de Marx ao sistema capitalista.

A história das sociedades até hoje é história da luta de classes.

Para Karl Marx, na década de 1840, o livre desenvolvimento do trabalho criativo era a chave para a emancipação humana. No entanto, ele percebeu que o trabalho humano estava sendo distorcido pelo sistema capitalista. Os trabalhadores que produziam bens essenciais para a vida não se realizavam em suas atividades, pois o trabalho era visto como uma atividade odiosa, imposta e opressora.

Marx argumentou que o capitalista detinha o controle dos meios de produção, enquanto os trabalhadores não possuíam nada além de sua própria força de trabalho. Essa força de trabalho se tornou uma mercadoria que era comprada pelo capitalista por um salário. Os trabalhadores eram forçados a vender sua força de trabalho para garantir seu sustento, mas essa venda ocorria em um contexto desfavorável para os trabalhadores e favorável para os capitalistas.

Essa relação desigual entre o capitalista e o trabalhador era uma das principais críticas de Marx ao sistema capitalista. Ele argumentou que essa relação era injusta e que os trabalhadores eram explorados pelo capitalista, que se beneficiava de sua força de trabalho sem lhes dar uma justa recompensa.

Marx chamou de alienação do trabalho precisamente esse fenômeno pelo qual o trabalhador, desenvolvendo a sua atividade criadora em condições que lhe são impostas pela divisão da sociedade de classes, é sacrificado ao produto do trabalho. Para Marx, os regimes baseados na propriedade privada dos meios de produção – sobretudo o capitalismo – tendem a transformar o homem num mero meio para a produção da riqueza particular (simbolizada pelo dinheiro).

No sistema capitalista, o produtor não tem mais liberdade para criar seus produtos de acordo com suas próprias ideias e necessidades. Em vez disso, ele está preso às exigências do mercado, que é controlado pelo capitalista. Isso cria uma inversão, onde o produtor depende do produto para sobreviver, em vez de criar o produto para atender às suas próprias necessidades.

Além disso, a divisão da sociedade em classes também afeta o capitalista, que se distancia da experiência cotidiana do trabalho produtivo. Isso impede que o capitalista reconheça as potencialidades criadoras do ser humano e o leva a ver os trabalhadores apenas como meios para produzir lucro.

A alienação não afeta apenas os trabalhadores, mas também os capitalistas. Ela afeta a maneira como eles pensam, são e compreendem o mundo. Como classe dominante, os capitalistas usam instituições e símbolos para impor sua visão particular sobre a sociedade e justificar a ordem social que lhes é vantajosa.

No entanto, mesmo as criações dos capitalistas, como instituições e símbolos, adquirem um caráter estranho e uma vida própria devido à alienação. Isso significa que os capitalistas perdem o controle sobre suas próprias criações, que passam a ter uma existência independente e a servir a interesses que não são mais controlados pelos capitalistas.

Para ter um exemplo dessa alienação dos capitalistas basta pensar no mercado capitalista. Os capitalistas criaram o mercado para a venda de seus produtos. Como, porém, estão divididos e competem uns contra os outros, os capitalistas jamais conseguem controlar o mercado em conjunto: este fica sujeito a movimentos surpreendentes e desequilibrados, capazes de levar qualquer capitalista individual à falência.

Isso explica por que o mercado é frequentemente tratado como uma entidade autônoma, que existe independentemente da intenção humana. É como se o mercado fosse uma realidade pré-existente, que os capitalistas precisam aceitar e trabalhar dentro dela, sem questionar sua existência ou legitimidade.

Essa visão do mercado como uma entidade autônoma e eterna é uma característica do pensamento capitalista, que tende a naturalizar e reificar as relações econômicas. Isso significa que os capitalistas tendem a ver o mercado como uma realidade objetiva, que existe independentemente de suas ações e decisões, em vez de ver que o mercado é uma construção social e histórica, que é criada e moldada pelas ações humanas.

ORGANIZAÇÃO POLÍTICAPARTE I

Os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 foram a última obra de Karl Marx antes de sua colaboração com Friedrich Engels. Em 1844, Marx e Engels se encontraram em Paris e iniciaram uma amizade e parceria intelectual que duraria toda a vida.

Durante sua estadia na França, Marx foi convidado a se juntar a várias associações comunistas, mas ele estava desapontado com o caráter conspiratório e intempestivo dessas organizações. Marx acreditava que era necessário organizar a classe trabalhadora e unir os revolucionários em torno de posições justas para os interesses da classe.

Na época, havia vários líderes socialistas e comunistas que estavam trabalhando em diferentes direções. Alguns, como os discípulos de Saint Simon e Charles Fourier, estavam mais interessados em promover as ideias de seus mestres do que em trabalhar em direção a uma revolução socialista. Outros, como Louis Blanc, estavam dispostos a trabalhar dentro do sistema político existente para promover mudanças graduais.

Marx também estava desapontado com os anarquistas, como Mikhail Bakunin e Joseph Proudhon, que estavam mais interessados em promover reformas econômicas pacíficas do que em trabalhar em direção a uma revolução socialista. Além disso, Etienne Cabet, que havia aderido ao comunismo após a leitura da Utopia, de Thomas Morus, era visto por Marx como ingênuo e desprovido de uma compreensão profunda da teoria socialista.

Karl Marx estava desapontado com a falta de diálogo frutífero com os líderes socialistas e comunistas da época. Ele sentia que não havia encontrado um parceiro revolucionário que compartilhasse de suas ideias e estivesse disposto a trabalhar em direção a uma revolução socialista. Foi então que ele encontrou em Friedrich Engels um parceiro que compartilhava de suas ideias e estava disposto a trabalhar em direção a uma revolução socialista.

Em 1844, Marx e Engels escreveram em parceria a obra “A Sagrada Família”, que foi uma crítica ao grupo de Bruno Bauer, um filósofo alemão que havia sido impedido de lecionar em Bonn. Bauer havia construído um grupo de seguidores em torno da revista “Gazeta Literária Geral”, onde ele ridicularizava os esforços revolucionários da época e professava aversão às massas. Marx e Engels viram em Bauer um exemplo de como a intelectualidade burguesa podia ser hostil às ideias revolucionárias e ao movimento operário.

MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO

Karl Marx viveu em uma época em que a obra de Friedrich Hegel era amplamente respeitada e estudada. Como resultado, o pensamento de Marx precisou lidar com as ideias de Hegel de alguma forma. Para Hegel, o movimento e a contradição eram conceitos centrais para entender a vida. Ele argumentou que o movimento é inerente à realidade e que a contradição é uma força motriz que impulsiona o desenvolvimento e a mudança.

Marx foi influenciado pelas ideias de Hegel sobre o movimento e a contradição, mas ele também criticou a abordagem idealista de Hegel. Marx argumentou que a realidade não é apenas uma questão de ideias e conceitos, mas também de condições materiais e relações sociais. Ele buscou aplicar as ideias de Hegel sobre o movimento e a contradição à análise da sociedade e da economia, mas de uma forma mais materialista e crítica.

Os filósofos metafísicos procuravam primeiro analisar cada ser e cada coisa, separadamente, para depois tratar de levar em conta as relações entre os seres, entre as coisas. Hegel, todavia, com seu método dialético, ensinou que os seres e as coisas existem em permanente mudança, entrosados um com os outros, e que só é possível entendê-los se desde o início forem devidamente consideradas as suas ligações recíprocas.

Marx foi criticado por Bruno Bauer e seus apoiadores por considerar a classe trabalhadora como uma classe messiânica, capaz de iniciar uma grande transformação social. No entanto, Marx argumentou que a classe trabalhadora não deveria ser vista isoladamente, mas em suas relações recíprocas com a classe capitalista. Ele acreditava que a classe trabalhadora, apesar de suas debilidades momentâneas, era a classe em posição de iniciar uma grande transformação social devido à sua posição na sociedade capitalista.

Marx também atacou Bruno Bauer e seus colaboradores, argumentando que eles não haviam superado o aspecto especulativo da filosofia hegeliana, que era idealista. Marx acreditava que Bauer e seus seguidores eram filósofos de gabinete que não entendiam as consequências práticas do método dialético.

Além disso, Marx criticou a visão de Bauer sobre a humanidade, que considerava que a evolução da humanidade era um projeto acabado e projetado na consciência divina. Marx argumentou que essa visão era idealista e que a história não era uma forma de demonstrar a indefectibilidade de um plano divino.

Em vez disso, Marx acreditava que a superação de um estado de coisas requer ação humana, e não apenas um conjunto de ideias. Ele argumentou que o pensamento precisa da prática e de um uso social para provar sua eficácia. Essa ideia foi explicitada nas Teses contra Feuerbach, lançadas em 1845.

Enquanto o idealismo propõe mudar o mundo através da transformação interior das elites, o materialismo defende que as circunstâncias externas aos indivíduos delimitam seu campo de ação e que é necessário transformar essas circunstâncias para criar um mundo diferente.

Karl Marx, em sua obra, desenvolveu uma visão materialista que superou as limitações dos materialistas anteriores. Ele argumentou que o homem não é apenas um ser biológico, mas também um ser social, e que a formação da consciência não é um processo mecânico, mas sim um processo ativo em que o homem intervém na realidade.

Marx introduziu um componente ativo na visão materialista, argumentando que as circunstâncias externas formam o homem, mas também que o homem as transforma. O homem não é passivo neste processo, mas sim ativo, intervindo na realidade e transformando-a.

Desta forma, o componente prático não pode ser descartado na descrição do processo de conhecimento do homem. O processo envolve a transformação do mundo pelo homem e a transformação do homem por ele mesmo. Interpretar o mundo é uma tarefa anterior ao trabalho mais importante de modificá-lo.

Para Karl Marx, a modificação do mundo é a tarefa mais importante, e é possível apenas através da concepção do processo do conhecimento que ele elaborou. Como comunista, Marx não se contentava com teorias que não tivessem uma ligação prática com a realidade.

Marx defendia que os comunistas modernos não podiam aceitar teorias que não tivessem uma prática declarada, ou seja, que não tivessem um impacto concreto na realidade. Além disso, Marx também rejeitava a postura passiva, que considerava que o pensamento se desenvolve apenas como produto das condições exteriores, sem qualquer autonomia ou iniciativa.

Em vez disso, Marx defendia que os comunistas deviam ter uma abordagem ativa e crítica, que considerasse a prática e a teoria como inseparáveis. Essa abordagem permitiria que os comunistas desenvolvessem uma compreensão mais profunda da realidade e pudessem agir de forma mais eficaz para transformá-la.

IDEOLOGIA

Karl Marx iniciou a construção de um materialismo prático através da crítica à ideologia, que resultou no livro “A Ideologia Alemã”, escrito em 1846 em colaboração com Friedrich Engels. A ideologia é composta por todas as formas de representar a vida que os indivíduos assumem em um dado momento histórico, incluindo suas crenças, valores e objetivos.

Para entender a ideologia, Marx e Engels argumentam que é necessário realizar um exercício antropológico para entender como a humanidade se desenvolveu ao longo da história. Eles afirmam que o homem primitivo vivia guiado por seus instintos e necessidades imediatas, mas com o desenvolvimento das ferramentas e da produção, o homem passou a modificar a natureza e criar uma economia produtora.

No entanto, o desenvolvimento do trabalho produtivo também teve consequências negativas, como a escravidão. Marx e Engels argumentam que a escravidão só se tornou viável com o desenvolvimento dos meios de produção, que permitiu que os proprietários de escravos mantivessem seus escravos e ainda obtivessem lucro. Além disso, a exploração do trabalho escravo gerou a primeira forma de divisão social do trabalho e a primeira forma de propriedade privada de uma fonte de produção.

A divisão social do trabalho e o surgimento da propriedade privada dos meios de produção criaram uma cisão na sociedade humana. Isso impossibilitou a existência de um ponto de vista universal, comum e espontâneo, pois a divisão da sociedade entre dominantes e dominados gerou uma situação em que os dominantes tinham interesse em apresentar seu ponto de vista particular como se fosse natural e universal.

Em outras palavras, os dominantes passaram a acreditar que seu interesse particular era o interesse de todos, e assim, impuseram sua visão como a única verdadeira. O particular foi apresentado como universal, criando uma forma de dominação ideológica que mascarava os interesses reais dos dominantes.

De outra forma,

As idéias da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes. Ou, dito em outros termos, a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante.

A classe dominante utiliza os mecanismos do Estado, como a educação, a mídia e a ideologia, para legitimar sua própria posição de poder e para convencer os dominados de que sua exploração é justa e necessária. Isso tem como objetivo desmobilizar qualquer forma de resistência ou questionamento por parte dos dominados, mantendo assim o status quo e a ordem social vigente.

ORGANIZAÇÃO POLÍTICA PARTE II

Em 1846, Karl Marx participou de uma reunião em Bruxelas organizada por Wilhelm Weitling, um líder revolucionário comunista. Weitling acreditava que um exército de trabalhadores e marginais poderia impor seu programa revolucionário. Marx, no entanto, criticou Weitling, argumentando que era ingênuo acreditar em uma revolução socialista em países que nem mesmo haviam experimentado uma revolução burguesa. Marx também exigiu que Weitling desenvolvesse um programa revolucionário baseado na ciência, que pudesse ser oferecido aos trabalhadores.

No mesmo ano, Marx recebeu o livro “A filosofia da miséria” de Pierre-Joseph Proudhon e respondeu com sua própria obra, “A miséria da filosofia”. Nela, Marx critica Proudhon, acusando-o de ser um hegeliano farsante que usa o vocabulário de Hegel, mas não consegue aplicar sua dialética. Marx argumenta que a abordagem de Proudhon leva a ciência social a buscar apenas o lado bom das instituições, em vez de analisar criticamente a realidade. Além disso, Marx critica a ideia de que a ciência social deva incorporar o lado bom encontrado nas pesquisas aos estágios mais avançados da sociedade.

Segundo Marx, Proudhon tinha uma mentalidade típica de um pequeno burguês, que é caracterizada por uma contradição interna. Por um lado, Proudhon é afetado negativamente pela classe capitalista, que o proletariza, mas por outro lado, ele repele a ideologia proletária e tem esperança de um dia se tornar um capitalista. Isso é uma contradição, pois Proudhon está ao mesmo tempo contra a classe capitalista e aspira a se tornar parte dela.

Marx também critica a visão de Proudhon sobre a greve, que ele considera uma ação criminosa. Já Marx considera a greve como uma ferramenta legítima que os trabalhadores podem usar para lutar por seus direitos. Além disso, Marx argumenta que o próprio sistema capitalista é responsável por aglomerar os trabalhadores e dar-lhes a oportunidade de se reconhecerem como uma classe. Isso é um ponto importante, pois Marx está argumentando que a consciência de classe dos trabalhadores é um produto do próprio sistema capitalista.

O Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels em 1848, começa com uma síntese do desenvolvimento social da humanidade. Segundo os autores, a história de todas as sociedades após o surgimento da propriedade privada é marcada pela luta de classes. A burguesia, por exemplo, conquistou o poder e implantou o capitalismo após uma dura luta contra as instituições feudais.

No entanto, o capitalismo também criou uma contradição fundamental: a oposição entre a burguesia, que é a classe proprietária dos meios de produção, e o proletariado, que não é proprietário de nada além de sua força de trabalho. O objetivo do proletariado é tomar o poder e implantar um tipo de organização social que torna a propriedade um bem coletivo, social.

Marx e Engels argumentam que a luta de classes é uma característica fundamental da história e que o proletariado tem o papel histórico de superar a propriedade privada e estabelecer uma sociedade socialista.

Aqui está uma parafrase do texto:

Em 1848, Marx e Engels publicaram a primeira edição da Nova Gazeta Renana em Colônia. Como o movimento operário era fraco na região, Marx considerou importante manter diálogo com democratas burgueses e se colocar como uma frente de esquerda dentro da liberal-democracia.

No entanto, Marx enfrentou críticas de André Gottschalk, um médico e líder da oposição a Marx. Gottschalk defendia que o proletariado deveria implantar o comunismo imediatamente e se opunha à participação da classe nas eleições. Marx criticou o oportunismo de Gottschalk, considerando-o falsamente radical.

Em 1849, Marx se mudou para Londres e travou discussões com August Willich, um revolucionário que acreditava que a disposição dos trabalhadores para o embate era mais importante do que as condições históricas para a revolução proletária. Marx considerou essa posição voluntarista e acreditou que ela atrasava a estratégia da luta dos trabalhadores.

Anos mais tarde, em 1860, Marx enfrentou uma nova crítica, desta vez de Karl Vogt, um materialista vulgar que acreditava que as ideias eram produzidas pelo cérebro como órgão biológico, sem considerar o processo social da produção das ideias. Marx criticou Vogt por ignorar que a classe dominante detém as ideias dominantes numa dada sociedade.

Aqui está uma parafrase do texto:

Karl Vogt, além de suas ideias materialistas vulgares, também era um obstáculo para as ações revolucionárias na Suíça, onde morava.

No entanto, apesar desses obstáculos, a luta dos trabalhadores continuou a avançar. Em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores, também conhecida como a Primeira Internacional, foi fundada. Essa organização tinha como objetivo unir os trabalhadores de diferentes países e lutar pela emancipação da classe trabalhadora.

A Primeira Internacional estabeleceu alguns princípios fundamentais para os trabalhadores organizados sob seu suporte, incluindo:

  1. A emancipação dos trabalhadores deve vir deles próprios.
  2. A libertação dos trabalhadores é a libertação de todas as classes.
  3. A luta política deve servir como parte da emancipação econômica da classe trabalhadora.
  4. A libertação do proletariado deve ocorrer através da união teórica e prática dos trabalhadores de diferentes países.

Para a próxima publicação, da série Marx, continuaremos a pare II onde falaremos da Teorias do valor, mais-valia, mercadoria, dinheiro e revolução. Não perca!

A bibliografia deste artigo será disponibilizada na segunda parte. Nos acompanhe e se inscreva!

A NATUREZA SOCIOLÓGICA DO CONFLITO E CATEGORIA “BANDIDO”: Uma Análise Comparativa entre Michel Misse e Georg Simmel

Por Leonardo dos Santos

A violência é um fenômeno complexo e multifacetado que permeia diversas esferas da sociedade, afetando indivíduos, grupos e comunidades. A sociologia da violência busca compreender essas manifestações, analisando suas causas, consequências e implicações sociais.

Neste contexto, Michel Misse e Georg Simmel são dois pensadores renomados que contribuíram significativamente para a compreensão da violência. Misse, sociólogo brasileiro, é conhecido por sua análise da construção social da categoria “bandido” em “Crime, Sujeito e Sujeição Criminal” (2006). Ele argumenta que essa categoria é criada e reforçada pelo sistema de justiça criminal, perpetuando a exclusão social e estigmatizando indivíduos que muitas vezes são produtos de contextos socioeconômicos adversos. Além disso, Misse examina como a criminalização de determinados grupos sociais contribui para a marginalização e a intensificação da violência em diferentes comunidades, revelando a complexidade da interação entre o crime e as estruturas sociais.

Já Georg Simmel, sociólogo alemão, apresenta uma análise profunda do conflito como forma de interação social em “A Natureza Sociológica do Conflito” (1904). Simmel destaca que o conflito é inerente às relações humanas e pode levar à mudança social, pois, em sua visão, o embate entre diferentes interesses e valores pode gerar não apenas tensões, mas também avançar a coesão social ao forçar a renegociação de normas e identidades dentro de um grupo. Essa perspectiva permite entender a violência não apenas como uma questão negativa, mas como uma manifestação complexa das dinâmicas sociais que pode eventualmente catalisar transformações e novos arranjos sociais.

1 A natureza sociológica do conflito – G. Simmel

De acordo com alguns teóricos, os conflitos sociais são fenômenos temporários, restritos a contextos específicos, isto é, transitórios. Marx, em sua análise, argumentava que as raízes dos conflitos sociais modernos se encontram nas disparidades econômicas que estruturam as relações entre as pessoas. A concentração da riqueza e dos meios de produção nas mãos de poucos, como Marx argumenta, geraria conflitos sociais inerentes. A luta de classes, resultado dessa desigualdade, poderia ser superada, em sua visão, com a extinção da propriedade
privada.

Contrariando as expectativas de Marx, o século XX não presenciou a extinção das lutas sociais. As sociedades pós-industriais, embora tenham testemunhado uma redução e uma maior institucionalização dos conflitos tradicionais, como os trabalhistas, vivenciaram o surgimento de novos embates, de natureza étnica e religiosa, caracterizados por alta intensidade e pouca estruturação. A globalização, com a intensificação dos fluxos migratórios e a crescente ,interdependência entre diferentes culturas, contribuiu significativamente para o surgimento desses novos conflitos.

A fragmentação das identidades nacionais e a busca por reconhecimento de grupos minoritários também desempenharam um papel crucial. Esses novos conflitos têm gerado instabilidade política, fragmentação social e, em alguns casos, violência generalizada. A dificuldade em encontrar soluções duradouras para esses problemas representa um grande desafio para as sociedades contemporâneas.

Já para Émile Durkheim, a raiz dos conflitos sociais modernos está na fragilidade dos mecanismos que integram os indivíduos em uma sociedade. A passagem de uma solidariedade mecânica, baseada em laços sociais fortes e valores compartilhados, para uma solidariedade orgânica, marcada pela divisão do trabalho e pela individualização, torna a sociedade mais suscetível a conflitos. É importante ressaltar que a ausência de conflitos não é sinônima de estabilidade social, como veremos com Simmel, pois outros fatores podem gerar tensões e desarmonia.

Sendo assim, Marx e Durkheim, ao tratarem os conflitos sociais como desvios ou acontecimentos temporários, reduziram de certa forma, a capacidade da Sociologia de analisar a complexidade desse fenômeno. A categorização dos conflitos como “patológicos”, por exemplo, restringe a análise a uma visão limitada, incapaz de abarcar a ampla gama de fatores que geram os conflitos e as diversas formas que eles podem assumir nas sociedades.

Foi com Georg Simmel (1983), em sua análise profunda das relações sociais, que ele ofereceu uma perspectiva inovadora sobre o conflito. Ao invés de vê-lo como uma patologia social, Simmel o considerava um elemento constitutivo da vida em sociedade. Para ele, o conflito não é um mero atrito entre indivíduos ou grupos, mas um processo dinâmico que molda as relações sociais, define identidades coletivas e impulsiona a mudança social. Simmel (1983) destacava a dialética entre união e separação, argumentando que a coesão social e a diferenciação são faces da mesma moeda.

O conflito, nesse sentido, não é o oposto da união, mas sim uma força que tanto pode gerar divisão quanto fortalecer os laços sociais. Ao explorar as diversas formas de conflito, desde os confrontos abertos até as disputas latentes por recursos e status, Simmel contribuiu significativamente para a compreensão da complexidade das relações sociais. Sua obra influenciou profundamente a sociologia dos conflitos, inspirando gerações de pesquisadores a analisar como os conflitos moldam nossas sociedades e instituições.

2.1 O conflito como sociação

Uma das contribuições mais originais de Georg Simmel para a sociologia reside em sua análise do conflito como um fenômeno social fundamental. Ao contrário de muitas teorias que veem o conflito como uma disfunção social, Simmel o considera uma forma de sociação, ou seja, um modo de interação social que contribui para a construção e manutenção dos laços sociais. O conflito não é apenas uma força destrutiva, mas também um elemento constitutivo da vida social.
Simmel (1983) desafia a visão tradicional do conflito, propondo que ele é uma forma de sociação. Isso significa que o conflito, ao invés de ser o oposto da interação social, é, na verdade, uma forma particular de interação. Ele argumenta que o conflito, ao gerar oposição e delimitar fronteiras, contribui para a definição de identidades sociais e a formação de grupos. Na visão de Simmel (1983), o conflito não é apenas um sintoma de disfunção social, mas sim um elemento constitutivo das estruturas sociais. Isto é, o conflito é certamente uma das formas de sociação mais importantes.

Ao gerar oposição e divergência, o conflito força os indivíduos e os grupos a se posicionarem e a negociar, resultando em novas formas de organização social e em uma constante redefinição das relações de poder. O autor aponta que os sentimentos de ódio, inveja, necessidade e desejo são frequentemente apontados como as raízes dos conflitos. Esses antagonismos, assim como as “doenças em um organismo”, surgem como uma resposta a desequilíbrios e divergências. A resolução dos conflitos, muitas vezes marcada pela aniquilação de uma das partes, pode ser entendida como uma tentativa de restabelecer a harmonia, ainda que de forma violenta. Essa dinâmica assemelha-se aos mecanismos de defesa de um organismo que busca eliminar agentes invasores ou corrigir disfunções.

2.2 A relevância sociológica do conflito


É evidente que se as relações entre os homens (e não o que o indivíduo é para si mesmo e em suas relações com objetos) constituem o objeto de uma ciência especial, a Sociologia, então, os temas tradicionais desta ciência cobrem apenas uma subdivisão deste objeto principal: é mais abrangente e é verdadeiramente definido por um princípio. Por um lado isto aparece como se houvesse apenas dois objetos consistentes da ciência do homem: o da unidade individual e o da unidade dos indivíduos (sociedade), qualquer outra temática parecia logicamente excluída. (SIMMEL, Georg, 1983, p.123)

O trecho argumenta que a Sociologia, enquanto ciência que estuda as relações entre os homens, possui um escopo mais amplo do que as temáticas tradicionais que se limitavam a estudar o indivíduo isoladamente ou a sociedade como um todo homogêneo. O autor sugere que a Sociologia deve se concentrar nas interações e relações entre os indivíduos, reconhecendo que essas relações são complexas e podem gerar tanto unidade quanto conflito. Parece, portanto, que historicamente a ciência do homem parecia se limitar a dois focos principais: o indivíduo em sua singularidade e a sociedade como uma entidade unificada. No entanto, essa visão restrita não consegue capturar a complexidade das interações humanas. O autor, ao analisar a relevância sociológica do conflito, afirma que o conflito, por si só, não se encaixa na ideia de unidade social. Na verdade, o conflito é um fenômeno independente que não pode ser simplesmente reduzido ou subsumido à noção de unidade. Ele representa uma força oposta à unidade, uma vez que questiona e desafia a harmonia e a coesão social.

2.3 Unidade e discordância

É de se afirmar que Georg Simmel, em sua análise profunda sobre o conflito social, nos apresenta uma perspectiva complexa e fascinante: a dialética entre unidade e discordância. Ao invés de ver o conflito apenas como uma força destrutiva, Simmel o enxerga como um elemento fundamental da vida social, capaz de gerar tanto divisões quanto uniões.

Há um mal-entendido, segundo a qual um destes dois tipos de interação derruba o que outros construíram, e o que eventualmente fica em pé é o resultado da subtração dos dois (quando na realidade deve ser designado como o resultado de sua adição). Este equívoco provavelmente deriva do duplo significado do conceito de unidade. Designa se como “unidade” o consenso e concórdia dos indivíduos em interação, em oposição as suas discórdias, separações e desarmonias. Mas também se chama “unidade” ao total do grupo-síntese de pessoas, energias e formas. (SIMMEL, Georg, 1983, p. 125)

O autor questiona a ideia comum de que o conflito social é algo negativo que destrói a unidade de um grupo. Ele argumenta que essa visão simplifica demais a complexidade das relações humanas. Na verdade, o termo “unidade” pode ter dois significados: a concordância entre os indivíduos e a totalidade do grupo, que inclui tanto as relações harmoniosas quanto as conflitantes. Ao focar apenas no primeiro significado, ou seja, na concordância, tendemos a ver o conflito como algo exclusivamente negativo. No entanto, quando consideramos a unidade de um grupo como um todo, percebemos que o conflito pode desempenhar um papel construtivo. Ele pode gerar novas ideias, impulsionar mudanças e fortalecer a identidade do grupo. Isso significa que o conflito não é o oposto da interação social, mas sim uma forma particular de interação. Ao criar oposições e delimitar fronteiras, contribui para a definição de identidades sociais e a formação de grupos. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que divide, o conflito também pode unir.

2.4 O conflito como força integradora do grupo

Segundo Simmel, o conflito não é apenas um elemento destrutivo nas relações humanas, mas também pode ser uma força que une os indivíduos. Ao analisar a dinâmica dos casais, ele sugere que a divergência de opiniões e a existência de conflitos podem, paradoxalmente, fortalecer o vínculo entre os parceiros. Essa tensão, em doses adequadas, gera interesse mútuo e impulsiona o desenvolvimento da relação, evitando que ela caia na rotina e na apatia.

Os conflitos e as divergências não são apenas obstáculos à união, mas também podem ser motores de transformação e integração social. Ao invés de buscar a eliminação completa dos desacordos, seria mais produtivo reconhecer o papel positivo que eles podem desempenhar na dinâmica de um grupo. A diversidade de opiniões e a presença de tensões podem, paradoxalmente, fortalecer os laços sociais e gerar novas formas de organização, enriquecendo a vida em comunidade. (Simmel, 1983, p. 126)
Segundo Simmel, a presença de conflitos em um casamento não significa automaticamente que esse esteja fadado ao fracasso.

Casamentos não são “menos” casamento pela
quantidade de conflito que contêm; ao contrário, a
partir de tantos outros elementos – entre os quais há
quantidade inevitável de conflito – evoluíram para as
unidades definidas e características que são.
(Simmel, 1993. p. 126)

O autor introduz o conceito de “modus vivendi suportável” para descrever relacionamentos nos quais as divergências e os desentendimentos fazem parte da rotina, mas não impedem que os parceiros continuem juntos.

2.5 Homogeneidade e Heterogeneidade nas relações sociais

Simmel (1983) critica a tendência da sociologia de reduzir as relações sociais a elementos isolados e simplificados. Ele argumenta que as relações humanas são muito mais complexas e dinâmicas, sendo resultado da interação de múltiplos fatores que se influenciam mutuamente. A análise sociológica, por mais rigorosa que seja, não consegue capturar a totalidade dessa complexidade, pois as relações sociais são como organismos vivos, em constante transformação e adaptação. O autor sugere que, muitas vezes, as relações sociais que parecem contraditórias e complexas, na verdade, são unidades homogêneas e coerentes. A dificuldade em compreender essa homogeneidade está na nossa tendência de analisar as relações sociais a partir de elementos isolados e de aplicar conceitos simplificados a realidades complexas.

2.6 O antagonismo como elemento da sociação

O trecho apresentado, atribuído a Georg Simmel, nos convida a uma reflexão profunda sobre a dinâmica das relações sociais, com um foco especial no papel do antagonismo. Simmel, com sua perspicácia característica, desvela uma faceta complexa e paradoxal do conflito: ao mesmo tempo em que pode gerar disrupção e destruição, o antagonismo também pode ser um catalisador para a união e a coesão social.

O autor inicia sua análise demonstrando que o antagonismo, embora não seja a única força motriz das relações sociais, é um elemento quase onipresente. Ele argumenta que o conflito pode intensificar-se a ponto de suprimir outros elementos que promovem a convergência, evidenciando uma hierarquia nas relações sociais em que o antagonismo, em determinadas circunstâncias, pode assumir um papel preponderante. Simmel, contudo, não se limita a uma visão simplista do conflito. Ele reconhece que as relações sociais são complexas e multifacetadas, e que o antagonismo se entrelaça com outros elementos, como a cooperação e a solidariedade. O autor explora essa complexidade ao analisar a relação entre as séries éticas e sociológicas, demonstrando como as motivações individuais e os valores coletivos podem se entrelaçar de forma ambígua nas relações sociais.

Um dos pontos mais interessantes da análise do autor é a sua discussão sobre a natureza do conflito. O autor distingue diferentes tipos de conflito, desde aqueles que visam à aniquilação do outro até aqueles que são motivados por interesses mais pragmáticos. Essa distinção é fundamental para compreender a variedade de formas que o antagonismo pode assumir nas relações sociais.

Por fim, Simmel também explora a relação entre conflito e poder. Ao analisar exemplos históricos, como a conquista lombarda da Itália, o autor demonstra como o conflito pode gerar novas formas de organização social e novas hierarquias de poder. Essa perspectiva permite compreender como o antagonismo pode ser tanto uma causa como um efeito das relações de poder.

Portanto, numa reflexão geral, a oposição externa a um grupo pode atuar como um catalisador para a coesão interna se levar em consideração a análise do autor. Quando um grupo enfrenta um inimigo comum, seus membros tendem a se unir e a fortalecer seus laços, buscando um objetivo comum. A intensidade desse conflito externo pode influenciar a dinâmica interna do grupo, podendo tanto suprimir quanto intensificar outros conflitos menores. Simmel (1983) destaca que a proximidade e os interesses compartilhados entre os membros de um grupo podem aumentar a intensidade dos conflitos internos, paradoxalmente.

O conflito, nesse sentido, seria um elemento constitutivo da vida social? Certamente si, uma vez que é capaz de gerar tanto coesão quanto divisão. O antagonismo é um motor de mudança social. Ao desafiar o status quo, os conflitos podem levar à transformação das instituições, à redistribuição de poder e à criação de novas formas de organização social.

3 Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica
sobre a categoria “bandido” – Michel Misse

Michel Misse, em sua obra Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica sobre categoria “bandido” apresenta uma análise rigorosa e inovadora sobre a categoria “bandido” na sociedade brasileira. O autor vai além de uma simples descrição dos crimes e dos criminosos, propondo uma reflexão profunda e muito interessante sobre os processos sociais que levam à construção da identidade criminal e à marginalização de determinados grupos. Os caminhos de análise nos levam ao cuidado da utilização de diversos termos que são colocados como problemáticos.

Em suas primeiras linhas, Misse (2010) analisa a relação entre sujeito, estrutura e poder, argumentando que a experiência de tornar-se sujeito está fundamentalmente vinculada à subjugação. Ou seja, o sujeito, nesse sentido, é o efeito de ser posto pela estrutura (poder) e de emergir como seu ser contraposto e reflexivo, neste caso, a potência. (Misse, 2010. p. 15)

Essa abordagem teórica integra conceitos de sociologia, filosofia e teoria crítica, destacando a importância da agência individual e da resistência contra a estrutura. Um dos pontos interessantes é a conceituação de “sujeição criminal”. Misse (2010) argumenta que a criminalização não é apenas uma consequência de atos ilícitos, mas sim um processo social complexo que envolve a construção de identidades, a distribuição de poder e a produção de desigualdades. A sujeição criminal, portanto, não se limita à punição de crimes, mas sim à produção de sujeitos marcados pela exclusão social e pela violência.

A sujeição criminal é um processo de subjetivação e criminação de sujeitos, produzido pela interpelação da polícia, moralidade pública e leis penais. A sujeição criminal é definida por Misse como um processo de subjetivação e criminação de sujeitos, produzido pela interpelação da polícia, moralidade pública e leis penais, que reifica o indivíduo em sua própria identidade social, com poucos espaços para negociação ou manipulação. É interessante notar que essa abordagem teórica permite compreender como o crime é definido e percebido socialmente, destacando a importância da autonomia individual e a tensão entre agência individual e determinação estrutural.

A construção do sujeito criminal envolve rotulação, estigmatização e tipificação, resultando em uma identidade social deteriorada. Autores como Foucault, Althusser, Butler, Goffman e Becker contribuem para essa análise. O conceito de sujeição criminal engloba processos de rotulação,
estigmatização e tipificação numa única identidade social, especificamente ligada ao processo de incriminação. Ou seja, o “bandido” é um sujeito criminal reificado em seu próprio atributo social, com poucos espaços para negociar ou manipular sua identidade pública estigmatizada.
De fato. Se levarmos em consideração o contexto brasileiro, o processo de identificação do “bandido” se baseou, sobretudo, em estigmas sociais relacionados a características. Por exemplo: como gênero, idade, raça, classe social e território, especificamente jovens negros das grandes periferias. Concordamos com Misse (2010) ao revelar que essa construção social e histórica gerou efeitos estruturais que contribuíram para a emergência de uma categoria específica de sujeito: o sujeito criminal.

A categorização em questão perpetua estereótipos negativos e discriminatórios, estigmatizando grupos vulneráveis e marginalizados, com consequências nefastas em múltiplas esferas. Isso, sem dúvida, acarreta uma restrição significativa das oportunidades educacionais e profissionais, bem como um limitado acesso a serviços públicos e benefícios sociais, culminando em uma exclusão social exacerbada. O autor demonstra como o contexto social influencia significativamente a construção da identidade criminal. Fatores como desigualdade social, pobreza, exclusão e discriminação tornam determinados grupos mais vulneráveis à
criminalização. Misse (2010) destaca o papel central da construção social da identidade criminal. Através de processos de rotulação, estigmatização e criminalização, a sociedade atribui a certos indivíduos a identidade de “bandido”, limitando suas oportunidades e perpetuando um ciclo de violência.

O sujeito produzido pela interpelação da polícia, moralidade pública e leis penais é caracterizado por ser antirrevolucionário, antidemocrático, antiegalitário e desinteressado no bem comum (Misse, 2010, p. 17). Trata-se, portanto, de um sujeito específico, cuja criminalização legitima sua exclusão social, tornando sua morte ou desaparecimento socialmente aceitáveis. O que existe, hoje, e que fica evidente, são as políticas de segurança pública, ao adotarem uma abordagem de “guerra ao crime”, isto é, a busca pelo inimigo em comum, que está socialmente classificado, categorizado e que sua existência é uma ameaça. Mas o problema dessas políticas é que exacerbam a violência e a criminalização, em vez de restaurar a ordem. Isso cria um ciclo de acumulação de violência e sujeição. O sujeito identitário criminalizado, estigmatizado como inimigo público se adapta para sobreviver a essa guerra.

Essa identidade, uma vez construída, torna-se difícil de ser superada, mesmo que o indivíduo, em alguns casos, tente se reintegrar à sociedade. Neste caso, o poder estrutural molda a identidade individual, criando uma relação de subordinação e dependência entre o sujeito e a estrutura social. Essa relação é fundamental para entender como a sujeição criminal é produzida e reproduzida, e como ela afeta a vida dos indivíduos rotulados como “bandidos”. Além disso, a obra mostra como a sujeição criminal é um processo que envolve não apenas a repressão, mas também a produção de subjetividades, criando uma relação complexa entre poder, identidade e crime.

LINHAS FINAIS…

A obra de Michel Misse, “Crime, sujeito e sujeição criminal”, e a clássica análise de Georg Simmel sobre o conflito social oferecem perspectivas complementares e enriquecedoras para compreender a construção social da criminalidade. Ambos os autores, embora inseridos em contextos históricos e teóricos distintos, convergem na ideia de que o crime não é um fenômeno isolado, mas sim um produto das relações sociais e das estruturas de poder. E divergem em alguns pontos.

Enquanto Misse concentra-se na análise da categoria “bandido” e nos processos de subjetivação que levam à construção da identidade criminal, Georg Simmel oferece uma análise mais geral do conflito social. Misse analisa a realidade brasileira contemporânea, enquanto Simmel desenvolve uma teoria geral do conflito social aplicável a diferentes sociedades e épocas. Misse como a sujeição criminal é um processo ativo, que envolve a interação
entre o indivíduo e as instituições sociais, e que se manifesta através de mecanismos de rotulação, estigmatização e controle social. O autor destaca a importância do contexto histórico e social na formação da identidade criminal, enfatizando o papel da desigualdade social, da exclusão e da discriminação.

Simmel, por sua vez, oferece uma análise mais abstrata e universal do conflito social, considerando-o como uma força motriz da vida social. Para o ele, o conflito não é necessariamente negativo, mas sim um elemento constitutivo das relações sociais, capaz de gerar tanto destruição quanto criação, e destaca a importância do conflito para a definição de identidades sociais e para a coesão social.

Ao comparar as obras de Misse e Simmel, podemos perceber que a análise de Misse aprofunda e contextualiza a perspectiva mais geral de Simmel. Ambas as obras oferecem contribuições importantes para a sociologia criminal. Misse nos ajuda a compreender como a criminalidade é um fenômeno socialmente construído e como as desigualdades sociais e as relações de poder moldam as nossas percepções sobre o crime e os criminosos. Simmel, por sua vez, nos fornece uma teoria geral do conflito social que pode ser aplicada a diversos contextos, incluindo a análise da criminalidade.

REFERÊNCIAS

MISSE, Michel. Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica sobre a categoria do bandido. Lua Nova, n. 79, 2010, pp. 235-244.
SIMMEL, G., A natureza sociológica do conflito, in Moraes Filho, Evaristo (org.), Simmel, São Paulo, Ática, 1983, pp. 122-134.

“Não comprar gato por lebre- por um exame da relação entre nacionalismo e anti-imperialismo nos anos JK”, de Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Por Leonardo dos Santos

(Reprodução da web)

O nacionalismo triunfante no Brasil correspondeu à fase do nacional-populismo durante o governo de Juscelino Kubitschek. Esse período foi marcado por um crescimento econômico significativo, especialmente no setor de bens de produção. A partir de um cenário internacional favorável, JK e seu vice, João Goulart, receberam amplo apoio, incluindo o do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Quase todo o campo nacionalista, incluindo a maioria do PCB, apoiou Kubitschek.

A imprensa, no entanto, foi uma voz discordante, com veículos como O Globo e O Estado de S.Paulo expressando a oposição da direita. Essa oposição foi significativa, pois refletia os interesses de uma direita que se expressava por meio dos principais meios de comunicação.

A participação da imprensa nesse contexto nos faz refletir sobre o contexto político atual, em que as informações políticas podem criar incertezas e dar palco a discursos de extrema direita e nacionalismo exacerbado.

Além disso, é importante notar que Kubitschek enfrentou renhida oposição da direita civil e militar desde que anunciou sua candidatura à presidência. Parte dessa oposição expressava interesses antiindustrialistas, embora houvesse exceções entre círculos militares, políticos profissionais e ocupantes de altos cargos no ramo civil do aparelho de Estado.

O Plano de Metas de Kubitschek sintetizou a política do Estado durante esse período, visando criar um tripé econômico consolidado composto por capital estatal, capital estrangeiro e capital privado nacional. Esse cenário de desenvolvimento econômico foi acompanhado por um “cenário simbólico” marcado pelo surgimento da indústria automobilística, inovações culturais como a Bossa-Nova e o Cinema-Novo, e a arquitetura de Oscar Niemeyer.

No entanto, a ruptura com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a subsequente crise econômica revelaram as limitações do nacionalismo triunfante. O governo de Kubitschek foi efêmero, e sua presença no centro do palco político brasileiro atualizou as linhas de força do nacionalismo populista, imprimindo um grande impulso à variante burguesa.

Essa burguesia, no entanto, logo passou a disputar não mais o governo, mas o regime político do país. O golpe de 1964 foi o resultado dessa disputa, e ele destroçou as lutas populares.

REFERÊNCIAS

DE ALMEIDA, Lúcio Flávio Rodrigues. Não comprar gato por lebre–por um reexame
da relação entre nacionalismo e antiimperialismo nos anos JK. Lutas sociais, n.
15/16, p. 77-90, 2006.

“Conexões Brasil-China: a migração chinesa no centro de São Paulo” de Carlos Freire da Silva

Por Leonardo dos Santos

Comerciante chinês na cidade de São Paulo (Reprodução WEB)

Como se caracteriza a migração chinesa no centro de São Paulo? Qual sua dinâmica? Quais transformações ela trouxe para a capital paulista?

Em seu artigo intitulado “Conexões Brasil-China: a migração chinesa no centro de São Paulo”, Carlos Freire aborda o processo de migração chinesa na capital do Estado na perspectiva da dinâmica migratória transnacional na escala da cidade, com impactos urbanos e nas dinâmicas transnacionais que se articulam a essa imigração. Neste sentido, para o autor, “Trata-se de pensar a incorporação de processos migratórios transnacionais e seu impacto na reestruturação das localidades. (SILVA, 2018)

Para Freire (2018), os migrantes chineses atuam para a circulação de produtos Made in Chine no comércio popular, refletindo a partir de uma dinâmica transnacional que deslocou a centralidade desses fluxos de comércios de Ciudad del Este, cidade e distrito do Paraguai, situada no extremo leste do país, para a cidade de São Paulo. As vendas desses produtos nas galerias na rua 25 de Março, para o autor, estão no centro de um agenciamento transnacional que coloca em movimento as pessoas e mercadorias. Essas mercadorias, no entanto, circulam entre mercados no centro de São Paulo, principalmente aos mercados das cidades de Guangzhou e Yiwu. (SILVA, 2018)

Para analisar o fenômeno, o autor utiliza-se, de antemão, de processos históricos nos quais as primeiras diásporas chinesas atribuiu a China como a principal provedora de migrantes no mundo partir do século XIX. Embora o autor pontua que Isso ocorreu graças a abertura e a viabilidade legal para migração dada pelo governo chinês para qualquer cidadão. Além disso, os incentivos econômicos dos diversos governos locais tiveram participação ativa na promoção desse processo migratório, como foram os casos das províncias de Guangdong, Zhejiang e Fujian. (SILVA, 2018)

Além das províncias acima citadas, o fluxo migratório se estendeu para os países da América do Norte, tais como Estados Unidos e pelo Canadá, e pela Europa — Itália, Inglaterra, Espanha e França.

No contexto brasileiro, para Freire (apud STENBERG, 2012, pág. 105 – 122), houve uma reorientação de vetores que fez com que esse fluxo migratório tivesse aumentado entre a América Latina e a África. Neste panorama, o Brasil situou-se atrás apenas do Peru como principal concentração de chineses. Nesse sentido, o autor toma como ponto de partida a migração chinesa como vetor analítico para pensar a dinâmica das relações que se estabelece entre Brasil e China. O crescimento da migração chinesa para o território brasileiro acompanha, sobretudo, o avanço das relações socieconômica do país chinês.

É importante destacar que os imigrantes chineses além de exercerem atividades comerciais, também atuam como professores, advogados e médicos. Carlos freire aponta para atuação destes nas próprias empresas chinesas que vieram investir no país nos últimos anos. Mas o que mais se evidencia no mosaico urbano da capital paulista é a grande concentração de migrantes chineses comercializando mercadorias importadas de seu país de origem (Made in China) nas galerias comerciais, sobretudo na Rua 25 de Março e no Brás.

Em suas primeiras páginas, o autor chama atenção para o aspecto metodológico, cuja pesquisa não se trata de uma discussão sobre a migração chinesa para o Brasil de modo geral, assim como não se trata, também, de uma discussão sobre “nicho étnico” ou “empreendedorismo étnico”. Dessa forma, o artigo se estrutura a partir das discussões acerca das “Transformações do espaço urbano; “Temporariedades dos fluxos migratórios; Qiaowu: a política de migração e as associações chinesas e “Entre extorsões, assaltos e a crise econômica”.

Em Transformações do espaço urbano, o autor apresenta o cenário paulista, especificamente os arredores da 25 de março e a Av. Senador Queiros, como o resultado de um forte processo de transformação ocasionado pela presença chinesa na cidade. O mandarim é um elemento significativo muito visível nas mais diversas faixas das instituições, sobretudo das empresas de serviços comerciais, como agência de viagens que vende passagens da China Airlines e escritório de contabilidade voltados a auxiliar os comerciantes chineses de todo o processo burocrático. Além disso, cabe aqui pontuar a presença de creches e instituições escolares que também surgem para suprir as demandas das atividades diárias das pessoas que vivem nesses espaços.

No processo de transformação do espaço urbano, o autor chama atenção para o surgimento do modelo de comércio em galerias. Para ele, o comércio tradicional vai cedendo espaço para estas galerias, pois se torna mais vantajoso para os proprietários sublocar o espaço em vários pequenos boxes. Nesse sentido, é muito mais vantajoso do que ocupá-lo com o comércio tradicional. (SILVA, 2018)

Em consequência disso, a partir da subdivisão do espaço e da dinâmica comercial, passa haver uma extrema valorização do custo de aluguel do metro quadrado nessas regiões — na 25 de Março e no Brás. De acordo com Carlos Freire da Silva, esses espaços chegam a ser muito mais caro do que os espaços de comércio de luxo na cidade.

Outro ponto que o autor discute, é o processo de “abandono” e apropriação de espaços ao longo do tempo. Conforme o autor: “No caso do Brás, especificamente, constituiu a primeira zona industrial de São Paulo a partir final do século XIX, com diversas fábricas instaladas ao lado da linha férrea. Também, a partir da década de 1980, processos de reestruturação produtiva, fechamentos e saídas de fábricas da área deixaram para trás muitos espaços vazios. Nos últimos anos, o desenvolvimento do comércio popular em escala tem alterado o espaço urbano. Os galpões industriais anteriormente em desuso agora estão sendo ocupados por galerias”. (SILVA, 2018). Já na região comercial da 25 de Março, desde o final do século XIX, se constituiu, sobretudo, pelas atividades comerciais de migrantes sírios, libaneses e armênios.

Quanto temporalidade dos fluxos migratórios, o primeiro grupo de que se tem registro teria desembarcado no Brasil em 1812, na cidade do Rio de Janeiro, para trabalhar nas plantações de chá. No entanto, o cultivo não deu certo por conta do clima muito quente. Dialogando com Weinong (2012), Carlos Freire distingue quatro fases da migração chinesa para o Brasil, acrescentando a estimativa da Associação Chinesa do Brasil em 2012: O primeiro ciclo da migração chinesa cujos registros iniciais são de 1812, que teve como objetivo a implementação do cultivo de chá, que já foi exposto acima; o segundo ciclo, mais discreto, seria marcado por migrantes da cidade de Qingtian, província de Zhejiang, que teriam se instalado no Rio de Janeiro a partir de 1910.(SILVA, 2018)

Em Qiaowu: a política de migração e as associações chinesas, o autor chama atenção para a importância da formação das associações no desenvolvimento dos circuitos, assim como as câmaras de comércio. Isso porque “Elas constituem canais de informação sobre ambos os lados fundamentais para a circulação de pessoas e mercadorias entre São Paulo e a região sul da China”. (SILVA, 2018)

A princípio, houve o estímulo à formação das associações, que seria um aspecto de uma política de aproximação e manutenção de contato com os chineses no exterior.(SILVA, Carlos Freire. Pág.235). Já no contexto brasileiro, a atuação das associações seriam unir os compatriotas, contribuir para promover o desenvolvimento da sociedade local.

De maneira geral, as associações são responsáveis por promover os assuntos chineses no exterior. Nesse sentido, as relações associativas e as câmaras de comércio entre os chineses em São Paulo “são componentes dessa dinâmica social que articula Brasil e China através da circulação de pessoas e mercadorias”. (SILVA, 2018).

Já em “Entre extorsões, assaltos e a crise econômica”, a discussão centra-se na questão da segurança e no deslocamento da centralidade na distribuição das mercadorias importadas diretamente da China para São Paulo a partir de uma dimensão formal das empresas de importação e exportação. De acordo com Carlos Freire, o trajeto das mercadorias parte do “desembaraço alfandegário” no porto de Santos e do Rio de Janeiro. (SILVA, 2018)

Tudo isso passa por um longo processo, passando pelos caminhões das transportadoras, pelo descarregamento nos depósitos até chegar à distribuição nas galerias. No entanto, ao longo de todo seu trajeto, os condutores das mercadorias muitas vezes estão sujeitos à fiscalização, corrupção e extorsões.

Por fim, embora este fluxo apresente uma dimensão formal, o autor destaca que “frequentemente há incompatibilidades entre os números declarados e quantidades e valores efetivamente importados”. Isso ocorre da mesma maneira com ausência de notas fiscais que comprovem a origem das mercadorias. (SILVA, 2018)

REFERÊNCIA

SILVA, Carlos Freire da. Conexões Brasil-China: a migração chinesa no centro de São Paulo. Cadernos Metrópole, v. 20, p. 223-243, 2018.

CULTURA DIGITAL E EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA- Preparados para o futuro?

Por Leonardo dos Santos

É verdade que a educação a distância aliada à tecnologia está ganhando cada vez mais espaço no mundo moderno. Isso é incrível! Mas se pararmos para pensar, isso não é nada novo, não. Estamos o tempo todo conectados, interagindo, nos informando, conhecendo novos amigos e, inclusive, novos amores. Isso nos faz lembrar de um trecho de um belíssimo poema da Cecília Meireles “De longe te hei de amar — da tranquila distância onde o amor é saudade e o desejo, constância”.

Mas a nossa pauta de hoje não estará relacionada a ideia da distância poética amorosa da Cecília Meireles, e sim das possibilidades do avanço da internet que nos permitiram repensar a educação dos novos tempos. Desde a primeira geração da educação a distância, que utilizava o ensino por correspondência, até os nossos dias, essa modalidade tem se apropriado de tecnologias que tomam possível a construção do conhecimento, apesar da distância física.

Alguns estudiosos costumam dizer que vivemos numa quarta geração, embora alguns já falem em quinta e numa possível sexta, cuja principal característica são as Tecnologias da Informação e Comunicação, as chamadas TICs. Inovadoras pela interatividade e possibilidade de sincronia, as TICs revolucionaram a educação e como observamos a educação a distância, justamente porque a distância, a principal característica dessa modalidade está cada vez mais superada.

É, até agora constatamos o quanto ela é importante para as nossas necessidades educacionais. É mais importante ainda para a formação dos nossos professores, pois ocuparão papéis importantíssimos na educação e não podem ignorar as ferramentas EAD, sendo tendências até mesmo na educação presencial.

Visto que a educação é um direito que deve alcançar a todos e o Brasil é um país com uma extensa área geográfica, percebe-se neste ponto uma problemática, ou seja, como permitir o acesso à educação de brasileiros que não residem em cidades de grandes centros? Diante dessa problemática, surge como resposta a modalidade de educação a distância. Modalidade esta onde o Art.80 da LDB9304/96 representou marco significativo para o desenvolvimento, regulação, avaliação e supervisão da EAD em todos os níveis da educação brasileira. E também é importante lembrar que o citado artigo acima passou por três regulamentações, em que a primeira foi o Decreto nº 2.494 de 1998 (revogado), a segunda regulamentação foi o Decreto5.622/05 que trouxe em sua redação no que tange aos seus cinco capítulos, algumas disposições como: exigência de encontros presenciais para estágios, apresentação do TCC, atividades laboratoriais, se previstas no programa do curso (art.1), possibilidade de se oferecer EAD em qualquer nível educacional (art.2) e a validade dos diplomas EAD será nacional (art.5). Convém lembrar que a portaria mais recente sobre a temática é a 1134/2016 e por fim, a terceira e mais recente regulamentação do Art.80 é o Decreto 9.057/17.

CULTURA DIGITAL

A cultura digital na educação começou nos anos 70, na Conferência Nacional de Tecnologia Aplicada ao Ensino Superior, que aconteceu no Rio de Janeiro, 14 a 19 de junho de 1971. A partir de então, houve uma explosão de acontecimentos que influenciaram na difusão do uso de recursos tecnológicos direcionados ao ensino, primeiramente, estabelecimento de políticas públicas que respaldassem o trabalho.

A transformação digital representa a nova Era. O tempo em que a educação digital era distanciada da nossa realidade, já passou. Hoje em dia, ela está presente nas áreas educacional, profissional, organizacional e mesmo de desenvolvimento pessoal.

O aluno, por exemplo, precisa estar sempre motivado. Conforme Almeida (2000, p. 79) é preciso criar um ambiente que favoreça a aprendizagem significativa ao aluno, “desperte a disposição para aprender (Ausubel apud Pozo, 1998), as informações precisam estar disponibilizadas de forma organizada e interessante”. É necessário que este aluno domine a tecnologia do ambiente virtual, para não desistir e não se sinta incapaz de continuar. E para isso esses recursos precisam estar próximos dos que o mesmo já utiliza no seu dia a dia.

Não há mais como discordar da importância do ensino à distância e da importância das TICs para a concretização desse processo. Essa interação, humanizantemente, já faz parte do processo evolutivo da educação. Visto que o mesmo é interativo, há desafios impostos na implantação e desenvolvimento das TICs nas instituições de ensino na modalidade de Educação a Distância (EAD).

REFERÊNCIAS

SARAIVA, Terezinha. EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL: lições da história. INEP. Em Aberto, Brasília, ano 16, n.70, abr./jun. 1996. Disponível em . Acesso em: 01 nov. 2018.

SCATOLIM, Roberta Lucas et al. Legislação e tecnologias assistivas: aspectos que asseguram a acessibilidade dos portadores de deficiências. InFor, Inov. Form., Rev. NEaD-Unesp, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 227-248, 2016. Disponível em < file:///C:/Users/Akila%20Carvalho/Documents/334-1197-2-PB.pdf> . Acesso em 09 nov.2018.

https://eademfoco.cecierj.edu.br/index.php/Revista/article/view/388

Um flâneur com Walter Benjamin

Por Leonardo dos Santos

Para os filósofos, seu trabalho era literário demais; para os críticos literários, era excessivamente sociológico. O pensador que nos ajudará a refletir, ou melhor, exercitar a nossa “imaginação sociológica” é o ensaísta, crítico literário, filósofo e sociólogo da cultura Walter Benjamin.

Esse pensador de origem judaica deixou um grande legado e ao mesmo tempo um grande desafio paras os estudos sociológico. Diferente de outros autores, Benjamin nos deixou uma obra difícil classificação, uma vez que se prontificou a escrever sobre diversos temas, e muitos de seus textos jamais foram concluídos.

Podemos dizer que o Walter Benjamin não foi um cientista social no sentido estrito da palavra, embora tivesse inspirado autores da primeira geração da escola de Frankfurt, a começar pelos autores Theodor Adorno e Max Horkheimer. Juntos, esses autores discutiram um tema que já vinha sido trabalhado por Benjamin, a Indústria Cultural e as Culturas de Massas.

Reconhecemos que seus ávidos críticos tiveram razão quando o acusaram de ter sido muitas vezes incoerente. Suas obras dispersivas e fragmentadas causavam espantos na academia quanto admiração. Mas é preciso entender que, para a época, a reflexão crítica sobre os brinquedos, a fotografia, a poesia, o cinema, a prostituta, o flâneur, era irrelevante. Portanto, a essência dos estudos de Benjamin está justamente na sensibilidade de observar a vida da modernidade e seus agentes em face da estrutura da metrópole.

Flâneur

Do verbo francês Flâner, que significa ” passear”, ” caminhar sem rumo, sem destino”. É aquele que caminha pelas ruas da cidade, experimentando as sensações que elas produzem. Foi com a definição dessa palavra, inspirado pelo Charles Baudelaire, que Benjamin encontrou a forma para definir os estilos e o ritmo da vida na modernidade.

Entre os asfaltos parisienses e os passantes, ao londo das grandes ruas de Paris, via-se uma nova paisagem social- as vitrines, os detalhes e uma nova dinâmica social de consumo.

Imagem: The Flaneur Abroad ( Nottingham, 6-7 jul 12)

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A CAPITAL DO SÉCULO XIX

O nosso passeio com Benjamin começa na cidade de Paris, cidade que ele próprio definiu como ” a capital do século XIX. Juntos, nos aproximaremos em alguns inventos tecnológicos que alteraram , segundo nosso autor, profundamente a maneira do homem europeu de se relacionar com a “realidade”. Essas alterações estão relacionadas ao surgimento de novos valores e novos padrões de convivências do povo francês.

O surgimento do cartaz é um dos fatores que chama a atenção de Benjamin. Observa que o surgimento desse instrumento está intimamente ligado às novas culturas urbanas, e está, sobretudo, associada ao consumo de produtos.

A disseminação dos cartazes e outdoors que divulgavam espetáculos, produtos e ideias pelos muros de Paris fizeram com que Walter Benjamin refletisse sobre uma nova sociedade de consumo.

Embora o primeiro cartaz tenha sido produzido somente em 1454, feito em manuscrito por Saint-Flour, é no final do século XIX que ele ganha maiores projeções.

Famoso por retratar a vida boêmia parisiense, Henri de Toulouse-Lautrec nos mostra em seu cartaz “Jane Avril” a vida social agitada da sociedade francesa.

Na obra “Jane Avril” O artista anuncia um show de cabaré no Jardin de Paris em 1893.

Imagem: Henri de Toulouse-Lautrec -, Jane Avril, 1893 – litogravura colorida – 129,1 x 93,5 cm

A maior parte da reflexão de Benjamin sobre a modernidade se encontra no livro Passagens. Nele, o autor julgou as passagens de Paris como algo muito importante. A partir da capital, as galerias comerciais passam a exercer uma profunda transformação. Para ele, as passagens eram como um “mundo em miniatura”, pois se concentravam ali diferentes tipos de mercadorias, principalmente das colônias francesas.

Um outro fator que entra no conceito de um” mundo em miniatura” é simplesmente as várias contradições de um sistema capitalista virgente.

Benjamin nos mostra a contradição entre a fartura e a carência, entre metrópole e colônia, entre o tempo útil de um produto consumido e o tempo efêmero da moda, entre os que podiam entrar para consumir e os que ficavam do lado de fora com os olhos admirados pelas novidades. Seria, nas palavras do nosso autor, um show de exposição de produtos e corpos.

“Cada um é o carro que dirige.”

Autor: Frank Lenita

E se o nosso pensador alemão aportasse no Brasil do século XXI, o que teria a nos dizer sobre o nosso padrão de consumo?

Sem dúvida, ficaria tonto- afinal, em um país grande e diverso, não é tarefa simples indentificar os padrões de consumo da população. No Brasil, o consumo relaciona-se diretamente a posições sociais: ao consumirmos certos produtos revela-se algo importante sobre o nosso status, sobre o lugar que ocupamos ou o que gostaríamos de ocupar na hierarquia social brasileira.

Associar a marca de um produto a determinados grupos sociais, é o que o Pierre Bourdieu chamou de distinção de consumo: classificando as pessoas pelo bem que elas portam. ” Cada um é o carro que dirige”.

As propagandas de produtos e serviços veiculadas pela mídia revelam aspectos que estão em processo de transformação. Nas campanhas, por exemplo, encontramos comportamentos direcionados para grupos étnicos, segmentos sociais, faixas etárias etc. Essas campanhas estimulam o público-alvo a consumir o produto anunciado.

Certamente, Walter Benjamin se surpreenderia com o processo de transformação do cartaz e da evolução constante das vitrines comerciais, ainda que observasse as diferenças de grupos sociais em espaços específicos de consumo.

A mulher parisiense e o padrão de consumo

As passagens eram espaços frequentados sobretudo pelas mulheres de família aristocráticas. Porém, é importante ressaltar que durante muito tempo, e ainda nos dias atuais, as mulheres estiveram associadas ao espaço doméstico. A circulação da mulher em meio a sociedade caracterizava-se como algo absurdo, mesmo as mulheres mais pobres, que trabalhavam fora, não era permitido. Uma mulher “de família” ou uma mulher “de bem e conservadora”, com um sobrenome a zelar , não andava também em qualquer lugar.

Somente um tipo de mulher poderia andar pelas ruas, a prostituta. Isso deve-se ao fato de terem sido vistas como “mercadorias”, e que deveriam ser “expostas” para o consumo masculino. Portanto, as passagens parisienses vieram garantir às mulheres um espaço seguro onde poderiam transitar sem nenhum problema.

Até aqui pudemos perceber o quanto o nosso autor alemão se mostrou sensível às mudanças de comportamento das mulheres e da sociedade patriarcal em relação a elas. Quando analisamos o período da Revolução Industrial e o protagonismo feminino na sociedade europeia, as mulheres das camadas menos favorecidas encontraram-se diante de uma necessidade de sobrevivência. O trabalho era elemento vital para manter-se estável. É nesse momento que elas saem de casa com a família para ganhar o sustento da casa nas grandes fábricas de manufaturas.

É fato que, ao longo de sua obra, Walter Benjamin manteve uma contínua preocupação com as transformações ocorridas em nossa maneira de perceber o mundo. As novas tecnologias alteraram a nossa maneira de perceber a vida ao nosso redor, e isso é, de certa forma, incontestável. Em A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, Benjamin tenta responder a essas questões, afirmando que o progresso das técnicas de reprodução e as alterações da percepção começaram com a fotografia e consequentemente com o cinema.

O daguerreótipo, primeira câmera fotográfica, lançada em Paris, em 19 de agosto de 1839.

Um exemplo disso é a questão da originalidade. Ao contrário da pintura, a fotografia não tem propriamente um “original”. Ela fez circular imagens de paisagens, de pessoas, objetos, mas também de obras de arte que só podiam ser contempladas por uma minoria e por isso pareciam envoltas em uma espécie de “aura”.

Graças à reprodução fotográfica, a Monalisa de Leonardo da Vinci se tornou muito presente no imaginário das pessoas em vários lugares do mundo. Podemos, por exemplo, estampá-la na camisa, nas xícaras, almofadas, tudo graças a fotografia e a tecnologia.

Portanto, Benjamin estava interessado em pensar sobre as alterações ocorridas não apenas na reprodução das imagens, mas também nas formas de perceber o mundo. As novas tecnologias chamaram a atenção de Benjamin porque além de oferecer respostas às necessidades do cotidiano, contribuíram para alterar a apreensão do indivíduo.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Passagens. Edição brasileira: Willi Bolle (Org.). Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007.p.94
Tempos modernos, tempos de sociologia / coordenação Helena Bomeny, Bianca Freire-Medeiros. – São Paulo: Editora do Brasil, 20010.

O romance brasileiro- Identidade Nacional e o Indianismo na Literatura.

Por Leonardo dos Santos

Foto: TV Globo

Após a Independência do Brasil (1822), uma seguinte dúvida pairaria no ar: o que é ser brasileiro? o que é o Brasil? O romance, ao surgir dentro desse contexto, toma para si o importante compromisso de estabelecer a identidade, língua e a cultura brasileira. É chegada a hora de “redescobrir” o país através de uma literatura independente.

O principal objetivo dos romancistas era a criação de um projeto de construção de uma cultura autônoma. Esse projeto, no entanto, exigia dos escritores da época um reconhecimento da identidade da nossa própria gente, da cultura e tradições que já se encontravam estabelecidas. Ou seja, tudo que constitui o ser brasileiro, seria objeto de valorização na arte literária.

O romance voltou-se para os seguintes espaços: a selva, o campo e a cidade.

É dentro dessa visão do espaço nacional que, respectivamente, surge o romance indianista e o romance regional com enfoque na vida rural e urbana. A maior voz da literatura romântica é José de Alencar. O escritor de O guarani, que é uma obra histórico-indianista, destacou-se também nos aspectos romance regional (O gaúcho) e no romance urbano com a obra Senhora.

O herói Nacional está na Mata.

Se do outro lado, no continente europeu, podemos dizer que o cavaleiro medieval era idealizado na literatura romântica, aqui no Brasil, os escritores viram na personagem indígena como único e legítimo representante da América. No entanto, não caberia ao negro, pois esse era visto como mão de obra escravizada, nem ao branco, visto que esse se identificava como colonizador.


Autores e Obras do Indianismo

José de Alencar (1829-1877) foi o principal romancista brasileiro da fase romântica. Autor das principais realizações de obras indianistas em prosa na nossa literatura são:

Iracema (1865), O guarani (1857) e Ubirajara (1874).

Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), grande nome do romantismo brasileiro e o maior na poesia.

I-Juca Pirama (1851), Marabá ( 1851), Canção de Exílio (1843) e Seus olhos.

José Basílio da Gama (1741-1795) foi um poeta luso-brasileiro e autor do poema clássico O Uruguai, de 1769.

Afinal, o que são as Tipologias Textuais?

Por Leonardo dos Santos

Primeiramente, para a compreensão das tipologias textuais, se faz indispensável abordar o processo dinâmico das relações sociais, e por consequência os atos comunicativos nos quais estamos inteiramente envolvidos. Todo texto, no entanto, tem uma estrutura, e essa estrutura damos o nome de tipologia. Existe, contudo, cinco tipos de textos que apresentam características e nos quais o autor pode expor a sua intencionalidade ao escrever o texto. Essas finalidades comunicativas e que são objetos de estudo da tipologia textual:

  • Dissertativo:
    expor uma ideia, argumentar, dissertar. Podemos deixar bem claro nossa opinião,
    ponto de vista, persuadir e fazer com que o interlocutor possa analisar,
    refletir, concordar ou discordar do ponto de vista abordado. Um tipo de texto
    muito rico em ideias e conhecimentos.
  • Narrativo:
    narrar, contar história (fictícia ou real); Podemos relatar ou expressar
    emoções, ideias, imaginações, realidades, lições, registro de fatos, enfim…
  • Descritivo:
    descrever, texto no qual se aponta as características da história; Exige
    riqueza de detalhes que possibilitem ao leitor imaginar a realidade ou mesmo
    complementá-la com sua criatividade e interagir com o texto.
  • Injuntivo:
    verbos predominantemente no imperativo que indicam orientação ou ordem, receita
    culinária, manual de instruções;
  • Expositivo:
    verbetes de enciclopédia, seminário, reportagens e editoriais (apresenta
    informações com linguagem objetiva e com predomínio da 3ª pessoa).

Todas as construções textuais estão relacionadas as suas tipologias, pois referem-se ao estilo da escrita argumentativa do fato narrado, o que leva a definição de seu estilo literário. Estes estilos podem ser utilizados isolados ou em conjunto fazendo uma mesclagem de tipologias, para Travaglia (2007) não existem tipos puros de textos e sim a conjunção tipológica, onde no mesmo texto podemos encontrar várias tipologias. O que existe em muitas escritas é a questão de dominância tipológica.

O que os autores querem mostrar em suas escritas dependem a que finalidade se destina, estipulando assim a dominância tipológica e a estrutura textual, que irão conduzir as escrituras a que se designam.